O profissional de Educação Física

fevereiro 19th, 2012 | 0 comments

Acredito que poucos conhecem realmente a import√Ęncia de um profissional de Educa√ß√£o F√≠sica. Parece ser um trabalho f√°cil. Vou explicar como n√£o √©.

Trabalhamos com a prescrição de atividades físicas. Esta prescrição tem sempre um objetivo, como, entre outros:

  • Divertir
  • Emagrecer
  • Fortalecer
  • Educar comportamentos
  • Aprender t√©cnicas esportivas

Nosso trabalho é utilizar as melhores estratégicas de uso da atividade física, para atingir estes objetivos. Uma escolha errada de atividades e o objetivo não será alcançado.

Assim, o profissional de Educação Física é treinado para conhecer a atividade física, a ponto de saber determinar qual atividade é melhor indicada para cada caso. A partir desse ponto, o leitor já deve concordar com a ideia de que esta é uma tarefa que exige algum preparo.

Vamos, ent√£o, aprofundar.

Prescrever atividades para uma pessoa deve considerar a busca pela automatização do movimento, aprendido corretamente. Quem aprende a dirigir, passa pela etapa inicial de se confundir com os pedais, enquanto passa as marchas e olha pelo retrovisor, e deve ser treinado para executar corretamente tais tarefas de maneira automática, como o taxista que dirige facilmente e ainda conversa com o passageiro.

Prescrever atividades deve considerar os aspectos culturais e morais da sociedade e da pessoa. Treinador de crian√ßas que xinga os palavr√Ķes mais cabeludos durante os treinos n√£o √© um bom exemplo disso. Devemos fazer a pessoa gostar de atividade f√≠sica, e n√£o traumatiz√°-la ou imprimir nela uma marca de incapacidade.

Prescrever atividades deve levar em conta a habilidade de dar o feedback no momento e do modo correto. Deixar as crianças brincarem sem intervenção fará com que elas não saibam quando acertaram, no que erraram, e como corrigir seus erros. Se ocorre um acerto, é preciso saber elogiar e apontar o que foi correto e porque. Se ocorre um erro, é preciso apontá-lo e corrigi-lo, mas não com deboche, descaso ou irritação.

Al√©m disso, a atividade f√≠sica deve progredir com estas orienta√ß√Ķes:

  • Do conhecido para o desconhecido;
  • Do f√°cil para o dif√≠cil;
  • Do simples para o complexo;
  • Do geral para o espec√≠fico;
  • Do individual para o coletivo.

O leitor j√° se convenceu de que este tipo de trabalho precisa de um preparo profissional? Leia os √ļltimos argumentos.

Há um provérbio que diz:

“Quando voc√™ ouve, voc√™ esquece
Quando você vê, você entende
Quando voc√™ faz, voc√™ aprende”

A aprendizagem exige prática, e duas formas comuns de prática de atividade física são o jogo e o exercício.

Por muito tempo, a atividade física (séria) se baseava em exercícios, que embora sejam tecnicamente mais indicados, emocionalmente se tornam menos eficazes. O exercício tende a ser chato, então o nível de atenção do aluno cai, sua execução de movimentos acaba desleixada. Assim, o jogo tem sido estudado como alternativa ao exercício, mas ainda com a barreira de não ser visto como uma atividade séria.

O profissional deve decidir quando usar um exercício e quando usar um jogo, em cada situação.

Vejamos o caso da agilidade. √Č a capacidade de acelerar, frear e mudar de dire√ß√£o em menor tempo, ou, simplesmente, ser “r√°pido”.¬†O que √© o pique pega sen√£o um jogo de agilidade?

Aliás, quantas pessoas sabem que o pique pega é uma prática que desenvolve a agilidade, não apenas um jogo infantil bobo e sem função?

Uma criança que joga amarelinha, sem saber, desenvolve:

  • o salto;
  • o equil√≠brio;
  • a for√ßa de membros inferiores;
  • o lan√ßamento preciso de objetos;
  • a no√ß√£o de espa√ßo.

Cabe ao profissional de Educação Física selecionar uma atividade adequada, como a amarelinha, quando precisar de uma atividade física para desenvolver o equilíbrio, por exemplo!

H√° ainda as varia√ß√Ķes de cada jogo. No caso do bobinho, h√° v√°rias habilidades e capacidades em jogo, mas principalmente duas: o passe e o desarme. Mas enquanto a maioria dos jogadores praticam o passe, apenas um pratica o desarme. Uma solu√ß√£o para equilibrar este n√ļmero √© mudar regras do jogo, por exemplo, aumentando a quantidade de bobinhos, sem que o jogo perca a divers√£o.

Há ainda outras técnicas que o profissional de Educação Física pode utilizar na sua prescrição de atividades, como, por exemplo:

  • A racionaliza√ß√£o do espa√ßo: os rach√Ķes do futebol, treinamentos com 22 jogadores e apenas uma bola, podem dar espa√ßo a jogos reduzidos, dividindo o espa√ßo do campo, onde haver√° mais bolas por jogadores e cada jogador passar√° mais tempo com bola nos p√©s do que no formato n√£o racionalizado.
  • Circuitos (no caso dos exerc√≠cios): ficar muito tempo num mesmo exerc√≠cio pode ser psicologicamente desgastante. Atrav√©s de circuitos, a pessoa pode executar um exerc√≠cio, por curto espa√ßo de tempo, ent√£o passar ao pr√≥ximo, e no final do ciclo retornar ao primeiro exerc√≠cio. Embora possa n√£o ser fisiologicamente o m√©todo mais eficiente, algumas pessoas entediadas com o treinamento ir√£o agradecer por isto.

E h√° muito ainda que n√£o escrevi neste texto. Ser profissional da Educa√ß√£o F√≠sica √© apoderar-se dessas t√©cnicas e ferramentas, estudar tudo o que precisa e come√ßar a prescrever exerc√≠cios, escolhendo as melhores atividades para as situa√ß√Ķes que encontrar na vida profissional.

Em quem você confiaria a prescrição de sua atividade física? Ao ex-atleta que largou a escola para ser jogador e não terminou o Ensino fundamental? Ao médico que nunca abriu um livro de aprendizagem motora ou de pedagogia do movimento?

Espero que, ap√≥s ler este texto, o leitor reconhe√ßa a import√Ęncia desse profissional na sociedade, assim como da sua boa forma√ß√£o acad√™mica.

E, para quem quiser se aprofundar:

http://www.eef.ufmg.br/gedam/apresentacao/apresentacao11.pdf

http://www.psicomotricialves.com/UCB/conteudo_ucb_AM.pdf

O fim do futebol brasileiro supremo

abril 10th, 2011 | 0 comments

Quero fazer uma previs√£o do futuro: o futebol brasileiro campe√£o, como o conhecemos, ir√° acabar. Vou expor meus argumentos:

Quem ensina o brasileiro a jogar futebol n√£o √© o clube, √© a rua. √Č a bola na rua, nos campos espalhados pelos bairros. Por√©m, cada vez mais nas ruas passam carros, √īnibus, impedindo a bola de rolar. A viol√™ncia urbana na m√≠dia e a evolu√ß√£o eletr√īnica, das TVs aos games, prendem mais as crian√ßas em casa do que antes, e a bola na rua rola cada vez menos. J√° os campos de v√°rzea est√£o dando lugares a casas populares, empreendimentos comerciais, shoppings, servi√ßos de sa√ļde, e j√° n√£o ir√£o mais ter bola rolando daqui para a frente.

Os clubes estão muito preocupados com a faixa dos 16 anos de idade, quando se pode prender um jogador a um contrato. Quem o ensina a chutar a bola, a dar os primeiros dribles? Isto não parece interessar aos clubes. Acho mais fácil encontrar equipes e torneios Sub-15 e Sub-17, atualmente . Vejo os clubes sem a preocupação de ensinar, apenas a de selecionar. Vejo times Sub-17 quase inteiros sendo desfeitos entre setembro e novembro, e refeitos novamente no começo do ano seguinte.

As idades de Sub-13 para baixo costumam ser aproveitadas por amantes do futebol, gente que costuma trabalhar de graça ou ganhando muito pouco dinheiro,  apenas por prazer, ou ainda por pedófilos que, secretamente, procuram estar próximos dessas crianças, gerando vários casos de pedofilia pouco ou muito divulgados, alguns dos quais chegam aos meus ouvidos.

Os clubes não trabalham com currículos organizado por idades. Os técnicos não criam uma lista das habilidades técnicas e táticas que seus jogadores precisam aprender em cada idade. E creio que apenas em clubes maiores dos que eu tive contato devem ter preparadores físicos bem formados, que sabe diferenciar um treinamento físico para Sub-15 de um para Sub-20.

Como os jogadores em formação Sub-13 facilmente encontram locais para treinar onde não se cobra nada, dificilmente uma Escola de Futebol conseguirá reunir bons profissionais e pedagogos do esporte num trabalho organizado de aprendizagem do futebol, cobrando uma mensalidade dos alunos que pague seus salários e suas despesas.

E como os clubes possuem uma prefer√™ncia ENORME por ex-jogadores, treinadores que j√° possuam “nome” ou o bolso cheio de dinheiro, este mercado continuar√° fechado para quem estudou para ser professor de futebol, e desestimular√° os formados em Educa√ß√£o F√≠sica a se p√≥s-graduarem em futebol. Assim, no futuro, continuaremos vendo ex-jogadores que n√£o terminaram o ensino fundamental pegando turmas de crian√ßas para prescrever atividade f√≠sica de aprendizagem esportivas para elas, n√£o importando mais as diferen√ßas entre o saber jogar e o saber ensinar a jogar.

Os poucos campos que ainda existem pelos bairros já possuem algum vereador ou outro político tomando conta, ou algum dono de terreno tentando fazê-lo parecer produtivo ou ocupado, e neles já há uma fila de ex-jogadores, alguns que nem chegaram a profissionais, ou amantes do futebol que já estão com suas equipes trabalhando nos campos, mas raramente alguém formado, que tenha um roteiro do que deve ensinar, que saiba com qual método ensinar, que queira planejar e que saiba por que deve avaliar seu ensino.

√Äs vezes recebo not√≠cias de que o pa√≠s X e o pa√≠s Y est√£o investindo pesado nas categorias de base do futebol, e penso em como estas categorias est√£o desperdi√ßadas, no Brasil. V√™m not√≠cias de Estados Unidos, Jap√£o, Austr√°lia e Nova Zel√Ęndia, recentemente o Uruguai… E n√≥s, jogados √† pr√≥pria sorte.

Lembro de uma vez em que trabalhei num clube e sugeri ao diretor que adot√°ssemos uma padr√£o de avalia√ß√£o f√≠sica peri√≥dica, para medir o quanto nosso treinamento f√≠sico estava dando resultados, me prontifiquei a montar a avalia√ß√£o, e ele riu para mim e disse: “N√£o precisa disso, n√£o! A gente v√™ daqui qual atleta n√£o est√° rendendo…”.

Para mim, é impossível ver futuro assim.