A melhor aula de 2012 (até aqui)

março 21st, 2012 | 0 comments

Aula do 6¬ļ ano. Apenas metade dos alunos com roupas trocadas para a aula na quadra.

Vamos lá, pessoal, hoje faremos atividades de apoio. Alguém consegue alcançar aquele ferro, ali em cima?

A turma olhou e viu que não dava. Ensinei a eles que há como um servir de apoio ao outro, para que ele consiga subir. Chamo de cadeirinha: entrelaçar os dedos para impulsionar o pé do outro para cima.

Quem passava perto da quadra via um professor e 12 alunos atr√°s do gol, tentando subir numa estrutura met√°lica. Parecia brincadeira de rua (e era). Algum superior viesse me repreender, mas estava certo do que fazia.

O grupo experimentou a subida.

Próxima atividade: outra cadeirinha? Pois eu também conheço essa por esse nome.

Turma, agora estamos numa praia. Uma pessoa entrou no mar, pisou numa pedra, agora o pé está sangrando e temos que levá-la para o outro lado da areia, para socorro médico. Como faremos?

Deixei-os pensar por uns segundos. Com o vácuo de ideias, mostrei o movimento dos braços, sem precisar dizer qualquer palavra. Duas pessoas dão os braços para a terceira sentar e ser transportada. Mais uma vez, foi um sucesso de participação. Desta vez, nem queriam mudar mais parar.

Próxima atividade: carrinho de mão. Esta muitos conhecem e pouca explicação foi dada.

A esta altura, os alunos j√° estavam cansados. Expliquei que aquelas eram atividades de for√ßa, que ia mesmo cansar. Mas partimos para a pr√≥xima: Pir√Ęmide humana.

Alunos de 6¬ļ ano fazendo pir√Ęmide humana? Este professor s√≥ pode estar louco! Quer mandar os alunos para um hospital…

O termo assusta, mas esta √© uma atividade que pode ser bem simples. Por exemplo, nossa tarefa foi uma pir√Ęmide de dois andares, onde, em cada dupla, um ficava no ch√£o e o outro subia em suas costas (costas, n√£o pesco√ßo), ent√£o dariam as m√£os aos outros e fechariam um c√≠rculo de dois andares.

Houve mais divers√£o do que dificuldade.

Quinta atividade: Escrever palavras com o corpo (em p√©). Ap√≥s mais uma pausa para a √°gua, ainda n√£o era uma hora de aula e dividimos o grupo dos meninos, para formar a palavra PARA, dos das meninas, para a palavra RAIO. E a√≠ a d√ļvida: O acordo ortogr√°fico alterou esta palavra?

Bem, seguimos a palavra antiga (e parece que est√° mesmo correta). Em dez minutos, estava l√° a palavra formada. Meus jurados (quatro alunos que n√£o trocaram a roupa) decidiram que a palavra estava bem “escrita”.

Sobrou tempo! Escolhi uma das atividades do próximo tema, a cooperação, e fomos correr um pouco: pique pega corrente. Regra principal: a corrente partida não poderá pegar nenhum dos fugitivos. Assim, ou eles coordenam seus movimentos, ou a corrente irá se partir a todo momento.

Assim, de três em três minutos fazíamos uma reunião de corrente (só a corrente participava dela). Lá eu os ajudava a pensar em estratégias para pegar mais rapidamente os demais. Para minha surpresa, não só foi um sucesso como não queriam mais parar de discutir estratégias.

A corrente foi melhorando, então comecei a fazer também a reunião dos fugitivos, para eles também pensarem um pouco em como fugir melhor da corrente. Ainda dei uma dica de ouro: se esconder atrás da corrente.

Enfim, chegou a hora de terminar a aula. E foi a MELHOR aula, assim, em mai√ļsculas. Surpresa foi a palavra que melhor encontrei para empregar aqui. Quem v√™ aqueles alunos ap√°ticos, que apenas jogam futebol de cal√ßa jeans, evitam trazer roupa para nem fazer a aula, ou aqueles alunos de sexto ano bagunceiros, indisciplinados ou desordenados, desta vez… Ser√° que foi apenas um dia solit√°rio de perfei√ß√£o?

Desta vez… Foi a aula perfeita.

O profissional de Educação Física

fevereiro 19th, 2012 | 0 comments

Acredito que poucos conhecem realmente a import√Ęncia de um profissional de Educa√ß√£o F√≠sica. Parece ser um trabalho f√°cil. Vou explicar como n√£o √©.

Trabalhamos com a prescrição de atividades físicas. Esta prescrição tem sempre um objetivo, como, entre outros:

  • Divertir
  • Emagrecer
  • Fortalecer
  • Educar comportamentos
  • Aprender t√©cnicas esportivas

Nosso trabalho é utilizar as melhores estratégicas de uso da atividade física, para atingir estes objetivos. Uma escolha errada de atividades e o objetivo não será alcançado.

Assim, o profissional de Educação Física é treinado para conhecer a atividade física, a ponto de saber determinar qual atividade é melhor indicada para cada caso. A partir desse ponto, o leitor já deve concordar com a ideia de que esta é uma tarefa que exige algum preparo.

Vamos, ent√£o, aprofundar.

Prescrever atividades para uma pessoa deve considerar a busca pela automatização do movimento, aprendido corretamente. Quem aprende a dirigir, passa pela etapa inicial de se confundir com os pedais, enquanto passa as marchas e olha pelo retrovisor, e deve ser treinado para executar corretamente tais tarefas de maneira automática, como o taxista que dirige facilmente e ainda conversa com o passageiro.

Prescrever atividades deve considerar os aspectos culturais e morais da sociedade e da pessoa. Treinador de crian√ßas que xinga os palavr√Ķes mais cabeludos durante os treinos n√£o √© um bom exemplo disso. Devemos fazer a pessoa gostar de atividade f√≠sica, e n√£o traumatiz√°-la ou imprimir nela uma marca de incapacidade.

Prescrever atividades deve levar em conta a habilidade de dar o feedback no momento e do modo correto. Deixar as crianças brincarem sem intervenção fará com que elas não saibam quando acertaram, no que erraram, e como corrigir seus erros. Se ocorre um acerto, é preciso saber elogiar e apontar o que foi correto e porque. Se ocorre um erro, é preciso apontá-lo e corrigi-lo, mas não com deboche, descaso ou irritação.

Al√©m disso, a atividade f√≠sica deve progredir com estas orienta√ß√Ķes:

  • Do conhecido para o desconhecido;
  • Do f√°cil para o dif√≠cil;
  • Do simples para o complexo;
  • Do geral para o espec√≠fico;
  • Do individual para o coletivo.

O leitor j√° se convenceu de que este tipo de trabalho precisa de um preparo profissional? Leia os √ļltimos argumentos.

Há um provérbio que diz:

“Quando voc√™ ouve, voc√™ esquece
Quando você vê, você entende
Quando voc√™ faz, voc√™ aprende”

A aprendizagem exige prática, e duas formas comuns de prática de atividade física são o jogo e o exercício.

Por muito tempo, a atividade física (séria) se baseava em exercícios, que embora sejam tecnicamente mais indicados, emocionalmente se tornam menos eficazes. O exercício tende a ser chato, então o nível de atenção do aluno cai, sua execução de movimentos acaba desleixada. Assim, o jogo tem sido estudado como alternativa ao exercício, mas ainda com a barreira de não ser visto como uma atividade séria.

O profissional deve decidir quando usar um exercício e quando usar um jogo, em cada situação.

Vejamos o caso da agilidade. √Č a capacidade de acelerar, frear e mudar de dire√ß√£o em menor tempo, ou, simplesmente, ser “r√°pido”.¬†O que √© o pique pega sen√£o um jogo de agilidade?

Aliás, quantas pessoas sabem que o pique pega é uma prática que desenvolve a agilidade, não apenas um jogo infantil bobo e sem função?

Uma criança que joga amarelinha, sem saber, desenvolve:

  • o salto;
  • o equil√≠brio;
  • a for√ßa de membros inferiores;
  • o lan√ßamento preciso de objetos;
  • a no√ß√£o de espa√ßo.

Cabe ao profissional de Educação Física selecionar uma atividade adequada, como a amarelinha, quando precisar de uma atividade física para desenvolver o equilíbrio, por exemplo!

H√° ainda as varia√ß√Ķes de cada jogo. No caso do bobinho, h√° v√°rias habilidades e capacidades em jogo, mas principalmente duas: o passe e o desarme. Mas enquanto a maioria dos jogadores praticam o passe, apenas um pratica o desarme. Uma solu√ß√£o para equilibrar este n√ļmero √© mudar regras do jogo, por exemplo, aumentando a quantidade de bobinhos, sem que o jogo perca a divers√£o.

Há ainda outras técnicas que o profissional de Educação Física pode utilizar na sua prescrição de atividades, como, por exemplo:

  • A racionaliza√ß√£o do espa√ßo: os rach√Ķes do futebol, treinamentos com 22 jogadores e apenas uma bola, podem dar espa√ßo a jogos reduzidos, dividindo o espa√ßo do campo, onde haver√° mais bolas por jogadores e cada jogador passar√° mais tempo com bola nos p√©s do que no formato n√£o racionalizado.
  • Circuitos (no caso dos exerc√≠cios): ficar muito tempo num mesmo exerc√≠cio pode ser psicologicamente desgastante. Atrav√©s de circuitos, a pessoa pode executar um exerc√≠cio, por curto espa√ßo de tempo, ent√£o passar ao pr√≥ximo, e no final do ciclo retornar ao primeiro exerc√≠cio. Embora possa n√£o ser fisiologicamente o m√©todo mais eficiente, algumas pessoas entediadas com o treinamento ir√£o agradecer por isto.

E h√° muito ainda que n√£o escrevi neste texto. Ser profissional da Educa√ß√£o F√≠sica √© apoderar-se dessas t√©cnicas e ferramentas, estudar tudo o que precisa e come√ßar a prescrever exerc√≠cios, escolhendo as melhores atividades para as situa√ß√Ķes que encontrar na vida profissional.

Em quem você confiaria a prescrição de sua atividade física? Ao ex-atleta que largou a escola para ser jogador e não terminou o Ensino fundamental? Ao médico que nunca abriu um livro de aprendizagem motora ou de pedagogia do movimento?

Espero que, ap√≥s ler este texto, o leitor reconhe√ßa a import√Ęncia desse profissional na sociedade, assim como da sua boa forma√ß√£o acad√™mica.

E, para quem quiser se aprofundar:

http://www.eef.ufmg.br/gedam/apresentacao/apresentacao11.pdf

http://www.psicomotricialves.com/UCB/conteudo_ucb_AM.pdf

Diferentes enfoques para o jogo “Queimado”

março 5th, 2011 | 0 comments

Dar enfoque n√£o significa abranger 100% da aula, mas garantir predomin√Ęncia. Assim, por exemplo, podemos usar feedbacks de organiza√ß√£o e de habilidades, no sexto ano, mas em escala bem baixa, pois o enfoque ser√° outro.

Especificar os enfoques de cada ano é evitar que cada atividade ensine ao aluno a mesma coisa, durante o currículo inteiro, o que seria uma perda de tempo para a educação. Evitar misturar os enfoques em todos os anos é evitar a confusão sobre o que ensinar.

Abaixo, exemplos de como desenvolver aulas de queimado, em cada ano, com cada enfoque.

6¬ļ ano (enfoque /cultural): apresentar o queimado como jogo popular, discutir sua competitividade entre os times e a coopera√ß√£o dentro de cada time, citar suas diferen√ßas de uma regi√£o para outra; jogar o queimado da maneira que os alunos o conhecem, de maneira inclusiva, e tomar consci√™ncia de que este √© apenas o queimado da cultura do nosso bairro.

7¬ļ ano (enfoque t√©cnico): descobrir e discutir as habilidades que predominam no queimado (correr, arremessar/finalizar, agarrar, desviar, saltar, se abaixar), quais s√£o mais importantes, como podemos desenvolv√™-las, para adquirir consci√™ncia sobre estes recursos, que ele pode utilizar melhor durante o jogo.

8¬ļ ano (enfoque na auto-organiza√ß√£o): partir da desorganiza√ß√£o para levar os alunos a aprender a organizar o jogo, a discuti e construir as regras democraticamente, antes e durante o jogo (ex: a bola fora que jogo para fora da quadra est√° em campo neutro ou pertence ao outro time? O jogador queimado poder√° voltar do po√ßo?), e a cuidar da organiza√ß√£o estrat√©gica das equipes (ex: como utilizar adequadamente o joguinho, para cansar o adv√©rs√°rio? Quem tem menor risco de perder a bola, ao tentar queimar o adv√©rs√°rio: jogadores do po√ßo ou jogadores do campo?)

9¬ļ ano (enfoque cr√≠tico): avaliar quais capacidade motoras predominam no queimado, avaliar o rendimento do seu time e fazer corre√ß√Ķes (quem arremessa com mais for√ßa? quem resiste melhor ao joguinho do advers√°rio? Quem queima mais e quem queima menos?); avaliar a utilidade do queimado na nossa sociedade (ex: o fato de ser jogo, n√£o esporte, o torna mais ou menos importante?).

1¬ļ ano (enfoque fisiol√≥gico): associar o queimado √† pr√°tica de atividade f√≠sica regular, ao combate ao sedentarismo, seu impacto no ganho de resist√™ncia cardiorrespirat√≥ria, no controle da obesidade e na sa√ļde.

2¬ļ ano (enfoque mec√Ęnico): estudar os grupos musculares principais, envolvidos nos principais movimentos do jogo, os tipos de les√Ķes mais frequentes, avaliar a melhor mec√Ęnica de movimentos como o de arremessar ou o de agarrar a bola, tentar imitar (copiar) algum movimento novo.

3¬ļ ano (enfoque social): tratar o queimado como um recurso de lazer e de conv√≠vio social, discutir maneiras de utiliz√°-lo para atrair pessoas para a atividade f√≠sica, de como utiliz√°-lo sem que a pessoa se machuque em seu lazer, discutir maneiras de inclui-lo no tempo livre das pessoas.

Cotidiano escolar

março 1st, 2011 | 0 comments

Começo de ano, turma nova de sétimo ano, dois alunos surgem para o seguinte diálogo:

- O que vai ser hoje, professor?

- Um monte de coisas…

- Mas vai ter futebol?

- N√£o.

- Ah! O que vai ter ent√£o, basquete?

- N√£o vai ter bola.

- Ah! Por que n√£o vai ter bola? A gente j√° fica sem poder usar a quadra, a√≠, na aula de Educa√ß√£o F√≠sica a gente n√£o pode usar a quadra…

- Espera a turma chegar do banheiro que voc√™s v√£o ver… Tem um monte de coisas.

Cinco minutos depois… uma menina vem conversar.

- Professor, cadê a bola?

- N√£o vai ter bola.

- A gente vai jogar o que sem bola? Queria jogar um futebol…

Resultado: começamos o ano com jogos de correr, como pique pega corrente, e de noção de tempo, com corda. Curtiram bastante a aula sem bola.