Cotidiano escolar

março 28th, 2012 | 0 comments

Aula do 6º ano, num primeiro bimestre sem bola:

“Caramba, tô fazendo um monte de coisa que eu nunca fiz na minha vida.”

Não sei o que dizer mas achei muito interessante o comentário dessa aluna.

A melhor aula de 2012 (até aqui)

março 21st, 2012 | 0 comments

Aula do 6º ano. Apenas metade dos alunos com roupas trocadas para a aula na quadra.

Vamos lá, pessoal, hoje faremos atividades de apoio. Alguém consegue alcançar aquele ferro, ali em cima?

A turma olhou e viu que não dava. Ensinei a eles que há como um servir de apoio ao outro, para que ele consiga subir. Chamo de cadeirinha: entrelaçar os dedos para impulsionar o pé do outro para cima.

Quem passava perto da quadra via um professor e 12 alunos atrás do gol, tentando subir numa estrutura metálica. Parecia brincadeira de rua (e era). Algum superior viesse me repreender, mas estava certo do que fazia.

O grupo experimentou a subida.

Próxima atividade: outra cadeirinha? Pois eu também conheço essa por esse nome.

Turma, agora estamos numa praia. Uma pessoa entrou no mar, pisou numa pedra, agora o pé está sangrando e temos que levá-la para o outro lado da areia, para socorro médico. Como faremos?

Deixei-os pensar por uns segundos. Com o vácuo de ideias, mostrei o movimento dos braços, sem precisar dizer qualquer palavra. Duas pessoas dão os braços para a terceira sentar e ser transportada. Mais uma vez, foi um sucesso de participação. Desta vez, nem queriam mudar mais parar.

Próxima atividade: carrinho de mão. Esta muitos conhecem e pouca explicação foi dada.

A esta altura, os alunos já estavam cansados. Expliquei que aquelas eram atividades de força, que ia mesmo cansar. Mas partimos para a próxima: Pirâmide humana.

Alunos de 6º ano fazendo pirâmide humana? Este professor só pode estar louco! Quer mandar os alunos para um hospital…

O termo assusta, mas esta é uma atividade que pode ser bem simples. Por exemplo, nossa tarefa foi uma pirâmide de dois andares, onde, em cada dupla, um ficava no chão e o outro subia em suas costas (costas, não pescoço), então dariam as mãos aos outros e fechariam um círculo de dois andares.

Houve mais diversão do que dificuldade.

Quinta atividade: Escrever palavras com o corpo (em pé). Após mais uma pausa para a água, ainda não era uma hora de aula e dividimos o grupo dos meninos, para formar a palavra PARA, dos das meninas, para a palavra RAIO. E aí a dúvida: O acordo ortográfico alterou esta palavra?

Bem, seguimos a palavra antiga (e parece que está mesmo correta). Em dez minutos, estava lá a palavra formada. Meus jurados (quatro alunos que não trocaram a roupa) decidiram que a palavra estava bem “escrita”.

Sobrou tempo! Escolhi uma das atividades do próximo tema, a cooperação, e fomos correr um pouco: pique pega corrente. Regra principal: a corrente partida não poderá pegar nenhum dos fugitivos. Assim, ou eles coordenam seus movimentos, ou a corrente irá se partir a todo momento.

Assim, de três em três minutos fazíamos uma reunião de corrente (só a corrente participava dela). Lá eu os ajudava a pensar em estratégias para pegar mais rapidamente os demais. Para minha surpresa, não só foi um sucesso como não queriam mais parar de discutir estratégias.

A corrente foi melhorando, então comecei a fazer também a reunião dos fugitivos, para eles também pensarem um pouco em como fugir melhor da corrente. Ainda dei uma dica de ouro: se esconder atrás da corrente.

Enfim, chegou a hora de terminar a aula. E foi a MELHOR aula, assim, em maiúsculas. Surpresa foi a palavra que melhor encontrei para empregar aqui. Quem vê aqueles alunos apáticos, que apenas jogam futebol de calça jeans, evitam trazer roupa para nem fazer a aula, ou aqueles alunos de sexto ano bagunceiros, indisciplinados ou desordenados, desta vez… Será que foi apenas um dia solitário de perfeição?

Desta vez… Foi a aula perfeita.

“A gente enrola”

março 11th, 2012 | 0 comments

Conversa reservada:

“Na verdade, a gente não dá aula, a gente enrola. Você vê: estamos em março, não chegou material, temos uma só quadra para dividir entre os professores, os alunos com preguiça de trocar de roupa e fazer aula… É impossível trabalhar direito assim.”

Obs: nada como em 2010, com quatro professores de Educação Física para dar aula numa mesma manhã.

Cotidiano escolar

março 6th, 2012 | 0 comments

A turma vai subindo para a primeira aula na quadra, deste ano:

— Professor, vai ter futebol hoje?

— Não

— Então nem vou trocar de roupa…

Miséria da Educação Física

fevereiro 7th, 2012 | 0 comments

Em conversa hoje, com uma colega de escola:

Na minha escola, professores como os de Educação Física, nós usamos como coringas, na hora de montar os horários. É mais fácil mexer com eles, trocá-los de turma… Na escola onde trabalho, os professores só dão futebol e queimado. Então, não importa se eles dão aula para o sexto ou para o nono ano.

Este é o fundo do poço!

Por que estudar estratégia?

abril 10th, 2011 | 1 comment

Facilmente, professores de outras matérias escolares podem achar que, na Educação Física, o aluno deixa o cérebro na sala de aula e leva apenas o corpo muscular para a quadra.

Por mais que possa parecer verdade, não é! Quem joga e se diverte tentando superar o desafio que o jogo lhe oferece, tem a opção de pensar sobre as características do jogo, descobrir suas manhas, usar sua inteligência para aumentar suas chances de vitória. Jogar com estratégia é jogar com um plano de ações escolhido, que supostamente dará vantagem ao jogador na sua busca pela vitória.

Um estudo sobre estratégia poderia ter uma infinidade de aplicações e exemplos, não só dentro do movimento humano, como também na vida amorosa, social e financeira. Porém, seus tópicos principais são simples. São coisas como: “evite o adversário onde ele é forte; ataque-o onde ele tem mais dificuldade para defender“, “conheça os pontos fortes e fracos do adversário, e também os teus“, “selecione os jogadores certos para as funções certas“, “Atrapalhe o adversário, o desconcentre, o canse“, “Leve o adversário a se espalhar, enquanto você se concentra“, “busque meios de obter superioridade numérica“, “economize sua energia, jogando com inteligência“, etc.

Uma vez perguntei à turma por que, no queimado, eles fazem o “joguinho” (entre quem está no cemitério e quem está na quadra), e uma menina disse que faziam porque “era legal”. Vejo que eles não pensam ainda estrategicamente, não pensam em cansar o adversário para queimá-lo mais facilmente.

Acho que deve ser dever da Educação Física levá-los a dar um passo a frente neste sentido. E nada de muito sofisticado é preciso: jogos como queimado, pique bandeira e pique ajuda com bola estão repletos de possibilidades estratégicas a serem pensadas e construídas.

Cotidiano escolar

março 16th, 2011 | 1 comment

Primeira aula do ano e vai o professor de Educação Física para o quadro escrever. De costas, ouve o comentário de um aluno, ao remexer seu caderno:

“Quero saber onde eu vou botar a matéria dele…”

Educa̤̣o dos sentidos РTato

março 5th, 2011 | 0 comments

Dentre as habilidades perceptivas listadas por João Batista Freire, listadas em seu livro Educação como prática corporal, está a sensibilidade, que se refere aos cinco sentidos.

Previ uma concentração de trabalhos com a educação dos sentidos no primeiro bimestre do sétimo ano (que, aliás, eu procuro fazer praticamente sem bola). Na Educação Física Escolar, não temos tempo para desenvolver os sentidos de uma pessoa, mas temos tempo para despertar nela a consciência sobre os sentidos, sobre aprimorá-los e os colocar à prova.

Hoje foi o dia do ano em que levei a primeira atividade de sensibilidade aos meus alunos de sétimo ano. Com poucos recursos, e sem saber exatamente como manufaturá-los, juntei três sacolas quase que completamente opacas, coloquei dentro da cada uma um objeto e as levei para a escola.

Os objetos eram: uma escova pequena de limpar roupas e sapatos, um pregador de roupas e uma tampinha dosadora de xarope.

Era a última atividade do dia. Eles tinham que colocar a mão no saco e, sem usar sua visão, tatear cada objeto e descobrir o que era. A atividade foi rápida e simples. Comentei a teoria da atividade e a iniciamos. Eles ficaram em silêncio até que todos terminassem de tatear os três objetos.

Para minha surpresa, a turma acertou até a tampinha de xarope. Vou precisar de objetos mais difíceis, da próxima vez.

Cotidiano escolar

março 1st, 2011 | 0 comments

Começo de ano, turma nova de sétimo ano, dois alunos surgem para o seguinte diálogo:

- O que vai ser hoje, professor?

- Um monte de coisas…

- Mas vai ter futebol?

- Não.

- Ah! O que vai ter então, basquete?

- Não vai ter bola.

- Ah! Por que não vai ter bola? A gente já fica sem poder usar a quadra, aí, na aula de Educação Física a gente não pode usar a quadra…

- Espera a turma chegar do banheiro que vocês vão ver… Tem um monte de coisas.

Cinco minutos depois… uma menina vem conversar.

- Professor, cadê a bola?

- Não vai ter bola.

- A gente vai jogar o que sem bola? Queria jogar um futebol…

Resultado: começamos o ano com jogos de correr, como pique pega corrente, e de noção de tempo, com corda. Curtiram bastante a aula sem bola.